llSão quase 23 anos de jornalismo esportivo, vivendo praticamente todas as experiências que um repórter poderia ter vivido.
llPorém, na ultima quarta-feira tive um novo momento de vida no futebol. Estive do outro lado, do lado de dentro dos vestiários de um time.
llFui convidado pelo diretor de futebol do Rio Preto, Cleber Arado, que disputa a Série A2 do Paulistão para integrar a delegação da equipe que jogou no ABC Paulista contra o São Bernardo, pela sétima rodada da competição.
llCleber inclusive, com a ajuda do gerente de futebol da equipe, Donizete, iria comandar a equipe, uma vez que o técnico André Oliveira havia sido demitido e o novo treinador, Play Freitas, não havia assumido.
llE lá fui eu, como uma espécie de auxiliar, do centro de São Paulo, onde o time estava concentrado, dentro do ônibus, com a delegação até o estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo.
llÉ muito diferente você chegar ao estádio nessa condição do que como jornalista. É muito diferente o clima no ônibus durante o trajeto. As preocupações da diretoria, a concentração dos jogadores (poucas brincadeiras, porque o time vinha de uma série de resultados ruins), a visão que se tem estando desse outro lado.
llÈ também uma experiência fora dos meus padrões participar da preleção no vestiário, da reza, ver o envolvimento de todos que ali estão na tentativa de vitória, de recuperação.
llSão empregos em jogos. È a credibilidade de jogadores e diretores em jogo durante 90 minutos. É ver como se sente o único atleta cortado do banco, os que ficam na reserva, nem sempre satisfeitos.
llAs preocupações para um jogo são inúmeras. Vão desde a água que será tomada e que tinha que estar gelada devido ao forte calor, como qual o caminho que o motorista vai seguir até o estádio.
llEnfim, por mais que não seja um time de elite, o Rio Preto me apresentou com essa oportunidade todas as sensações que eu tento relatar como repórter, só que estando do outro lado e lógico, passando a ter um envolvimento até emocional com o resultado da partida.
llVocê esquece tudo estando neste ambiente e passa a torcer mais do nunca pela vitória da equipe, como se fosse seu time de coração, como se fosse a final do campeonato.
llDentro de campo, infelizmente o Rio Preto perdeu pela sexta vez em sete rodadas: 2 a 1 São Bernardo. Embora, sem querer puxar a sardinha para o lado da equipe do interior, o resultado de empate seria o mais justo.
llDepois do jogo, a decepção. Lógico que como repórter percebo isso no dia-a-dia do meu trabalho. Mas estando na delegação, esse sentimento é muito mais sólido e perturbador.
llO jogo não acaba quando o juiz apita. Tem o doping, tem os sorrisos amarelos pelo resultado negativo, as conversas de canto, as lamentações e o silêncio.
llComo não havia nenhuma imprensa de São José do Rio Preto acompanhando a partida, as explicações acabam sendo internas. É como se os próprios membros da delegação se entrevistassem procurando as justificativas,
ll“Ah, se aquela bola tivesse entrado”,” Aquele gol não estava impedido”, “Você não acha que poderia ter saído naquela bola?”. Frases soltas no vestiário, que poderiam ser muito bem, ditas numa entrevista.
llAinda antes de deixar o estádio, um momento legal é a confraternização dos dois times. Muitos jogadores se conhecem, e os adversários dentro de campo, são amigos fora dele.
llHá um respeito mútuo e digno. Mesmo rivais na briga por posições na tabela, impera a cordialidade. Jogadores e dirigentes do Bernô a todo o momento passando no vestiário do Rio Preto e desejando uma boa viagem e sorte no Campeonato.
llAfinal de contas, os 2 times não deverão mais se cruzar na competição. A não ser numa improvável fase final. Deixam de ser adversários para serem companheiros de sofrimento nesta divisão.
llE tem a volta para São Paulo. Triste, sem muita conversa no ônibus, com muitos telefonemas ao presidente sobre o que iria acontecer.
llEmpresários oportunistas oferecem todo tipo de jogador que pode, segundo eles, ajudar o Rio Preto a sair desta situação.
llA televisão do ônibus (aliás, a única que sobrou, porque o veículo foi arrombado na noite anterior e teve alguns equipamentos roubados no centro de São Paulo), está sintonizada no jogo do Corinthians na Libertadores. Mas as reações dos atletas são mínimas.
llEstão preocupados. O Rio Preto permanece na capital paulista, pois sábado joga em Barueri contra o Grêmio local. E segue a dura vida deste time e destes atletas.
llEu volto a minha rotina de jornalista. Tendo a certeza que vivi, num jogo quase sem importância da segunda divisão paulista, um momento único na minha carreira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário